Breve Histórico sobre GIBIS - Década de 1940

Autor: Afonso - contato: 70anosdegibis@gmail.com 

Os primeiros registros neste módulo ocorreram em 03/2014.

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Introdução:

 

## A década de 1930 terminou de forma preocupante: a ameaça nazista pairando sobre todos. O mundo já não era o mesmo; enfrentava agora os horrores da 2a. Guerra Mundial. 

No capítulo anterior, abordei em vários tópicos esta questão da 2a. Guerra e aqui voltarei ao assunto mais de uma vez, até porque seus efeitos e consequências foram de tal ordem, que afetaram todos os povos, em todos os sentidos. Foi uma situação que realmente impactou de forma profunda a vida de todos a partir do final dos anos 30.

Mesmo no Brasil, não diretamente envolvido no conflito, a vida seguia com as dificuldades naturais provocadas pelo relacionamento com as demais nações e pelo drama vivido por aqueles que tinham parentes e amigos em países diretamente atingidos pela guerra. Havia, ainda, a ameaça de desabastecimento de produtos necessários à sobrevivência.

 

Abordagem:

 

Roberto Marinho e Adolfo Aizen continuavam competindo, um lutando com todas as forças possíveis visando construir as poderosas Organizações Globo do futuro; o outro totalmente dedicado à edificação da Ebal. E hoje, praticamente 80 anos depois, podemos avaliar corretamente o grau de importância desses dois empresários para a cultura dos quadrinhos em nosso país, independentemente dos aspectos éticos que alguns possam levantar em relação a essa competição. 

## Os quadrinhos vinham do período áureo da década de 1930 quando, como já relatamos no módulo "Primeiros Tempos até Década de 1930", houve nos USA uma verdadeira explosão de criatividade, jamais repetida, com a criação de inúmeros personagens que sobrevivem até hoje, 70 ou 80 anos depois !!!  Esses personagens, na verdade, consolidaram-se, sem dúvida, ainda no final da década de 1930 / início dos anos 40 - casos de Batman, Superman, Wonder Woman (Mulher Maravilha), Li'l Abner (Ferdinando), O Príncipe Valente, Flash Gordon, O Fantasma, Mandrake, Red Ryder, Dick Tracy, Jim das Selvas, e muitos outros.

 

                                    Dick Tracy                                    Seu criador nos anos 1930 - Chester Gould

     

                              Acervo:www.70-anos-de-gibis
 

## A exemplo do que registrei no módulo anterior (Primeiros Tempos ...), existe um livro à venda nas boas livrarias do Brasil, o qual faço questão de indicar aos internautas interessados na rica história de nossos gibis, que contém informações incríveis acerca de gibis e todas as publicações que poderiam assim ser classificadas, com uma riqueza enorme de detalhes, além de comentários muito bem estruturados, enfim, um colossal arcabouço de informações do que se produziu até hoje, conteúdo este que nos impressiona. As informações nele contidas são, sem exagero, um verdadeiro tesouro. Vale a pena consultá-lo. 

Eis o título: Enciclopédia dos Quadrinhos - da L&PM Editores, organizada por Fernando Goida/André Kleinert. 

Em respeito aos autores da citada enciclopédia não a tenho considerado como norteadora das informações aqui contidas, até para não dar a impressão de que eu poderia estar copiando informações por eles disponibilizadas, dessa forma, preferi focar minhas abordagens dentro de minha ótica, preferencialmente, em edições da década de 1950 em diante, e naquelas publicações que me são familiares, o que não significa que não serão tratados aqui edições anteriores a essa época e aquilo que seja objeto da abordagem da enciclopédia citada. Isto será feito sempre que oportuno.

## A pioneira e já citada também no módulo anterior, a revista brasileira Tico-Tico (um gibi), marcou profundamente a infância de cada um que a viveu nas décadas do início do século XX até 1940, publicação fruto de abnegados desenhistas, chargistas e cartunistas, como J. Carlos, que vinha do início do século, e Luiz Sá, entre outros. Vale lembrar a personagem Lamparina de J. Carlos e os inesquecíveis: Azeitona, Reco-Reco e Bolão, criados pelo caricaturista cearense Luiz Sá (1907 - 1979). São, sem dúvida, no Brasil, referências sobre quadrinhos. 

  
                 Lamparina de J.Carlos                             Os personagens de Luiz Sá                    
                   
                       /album/galeria-de-fotos/luiz-sa-grande-desenhista-brasileiro-jpg/   
                           www.bib.unesc.net                                            www.onordeste.com       
 
                                                                  Luiz Sá
                                                                       
                                                                                                                                          
 
                                                caricasdobira.blogspot.com.br         
 

Como curiosidade, registre-se que os Chicletes Ping-Pong, durante muito tempo, até a década de 1950, trouxeram em sua embalagem, figurinhas alusivas a esses personagens, o que, com certeza, propiciou ampla divulgação de cada um deles. Essa divulgação, em contrapartida, contribuiu muito para a elevação de consumo do produto - os chicletes. E as figurinhas, ao longo do tempo, transformaram-se em expressivo objeto de disputa entre colecionadores. 

## Durante o conflito da Segunda Guerra Mundial, percebeu-se a necessidade de se manter um mínimo de "normalidade", importante para o ser humano exposto a ameaças e a uma grande insegurança, ao mesmo tempo que se viu a necessidade de ser levada aos soldados, por intermédio dos gibis, uma mensagem positiva e de apoio ao papel que desempenhavam.

Com isso, algumas medidas voltadas para a utilização dos quadrinhos no chamado "esforço de guerra" contribuiram fortemente para sua preservação no período e até, em determinados casos, para sua evolução. Autores e desenhistas acabaram sendo "convocados" a participarem indiretamente do conflito, através de suas histórias, de seus personagens, criando situações envolvendo a guerra. 

Assim, Capitão Marvel, Capitão América, Batman, Superman, O Fantasma, Brick Bradford, entre outros, tiveram suas histórias ambientadas no conflito, buscando prioritariamente gerar um espírito de corpo entre os que defendiam a justiça e a liberdade nos campos de batalha, e a população que continuava sua vida em tempos de guerra.

Foi, efetivamente, um período difícil para todas as nações e todos os povos mas é interessante observar a capacidade do ser humano em criar condições de enfrentamento e superar adversidades. Um outro detalhe interessante foi que, com o retorno dos combatentes para suas atividades civis, retomaram-se muitas carreiras interrompidas com a guerra. Um exemplo típico e que merece ser evidenciado é o de Alex Raymond - que havia criado Flash Gordon e Jim das Selvas - que, após seu retorno da guerra, criou seu personagem Nick Holmes (curiosamente o personagem também retornava da guerra), um detetive particular que alcançou enorme sucesso entre os leitores.

## O cinema, vivendo uma época áurea - o período pós-Segunda Guerra (2a. metade da década de 1940), avançando até o final dos anos 50 - influenciava diretamente os quadrinhos. Um exemplo marcante desses tempos, foi o caso de Flash Gordon, o herói interplanetário que estrelava o famoso seriado cinematográfico, alegria da garotada nas matinés domingueiras e que, ao mesmo tempo, tinha sua revista em quadrinhos avidamente disputada por esses mesmos garotos. 

                                 Flash Gordon e seu criador, também nos anos 1930 -  Alex Raymond

                                           

## Uma lembrança importante da época (anos 1940 avançando pelos anos 50), e que merece ser melhor evidenciada, foi o Capitão Marvel, que aparecia normalmente no Gibi Mensal da RGE, cujo desenho era de uma simplicidade incrível e que angariou inúmeros fãs infanto-juvenis. A palavra mágica "Shazam" tinha o dom de transformar o jovem Billy Batson no implacável herói Capitão Marvel, defensor da justiça e da verdade, e que tinha como principal oponente o terrível Dr. Silvana. As aventuras do Capitão Marvel empolgavam os leitores e nelas, o citado vilão Dr. Silvana, personificando o mal, construiu uma imagem tão forte que é até hoje lembrada por muitos. 

                                                          Anos 1940/50:    
           
              Capitão Marvel e Billy Batson                 O valoroso Capitão América
  
                  
                                                     www.pinterest.com
 

## Competindo com o Capitão Marvel, havia o Capitão América, herói representativo do nacionalismo americano, cuja imagem procurava fixar o heroísmo e a coragem, cultuados na Segunda Guerra Mundial. O Capitão América foi criado por Jack Kirby e Joe Simon, por volta de 1940, portanto, exatamente quando o conflito mundial adquiria gigantescas proporções. 

## Ainda nos USA, William Hanna e Joseph Barbera (que ainda não haviam criado a poderosa organização Hanna Barbera, surgida apenas na segunda metade dos anos 1950), criaram a dupla Tom e Jerry, personagens que fizeram (e fazem) enorme sucesso em todo o mundo. E continuaram produzindo novos personagens praticamente até a década de 1990, com grande sucesso. 

                                                              Tom &Jerry
                                        
                                                      http://kids-cute.blogspot.com.br
 

## Nevada (Red Ryder), criado por Fred Harman, na década anterior, era um dos personagens mais queridos. Sempre acompanhado por Castorzinho (Little Beaver), vivia movimentadas aventuras no Velho Oeste, no traço inconfundível de Harman. No cinema (filmes e seriados) foi vivido por vários atores: Don "Red" Barry, Wild Bill Elliott, e até por Allan "Rocky" Lane.

                                     
                                                     As belas capas de Red Ryder
                           
                                           ambas as imagens: www.mycomicshop.com
 

## Enquanto isso, Wild Bill Elliott, Tim Holt, Durango Kid, Hopalong Cassidy, Rocky Lane, Buck Jones, entre outros heróis do faroeste faziam a festa da garotada, num tempo em que os revólveres de brinquedo eram talvez o brinquedo mais popular, bem diferente dos preocupados tempos atuais.    

## As editoras brasileiras, notadamente RGE Ebal, disputavam ferrenhamente o público dos gibis, com lançamentos constantes e maciça propaganda visando ocupar os primeiros lugares na preferência dos leitores. A competição realmente era muito grande e vinha ainda dos anos 30, conforme já registrei, com detalhes, no módulo anterior - Primeiros Tempos ..., envolvendo, principalmente, Adolfo Aizen, Roberto Marinho e também Assis Chateaubriand.

Inúmeros atores americanos - entre eles os cowboys cantores Gene Autry, Roy Rogers, Rex Allen - bem como John Wayne, Bob Steele, Alan Ladd, Rod Cameron, William Boyd (Hopalong Cassidy), Charles Starrett (Durango Kid), Wild Bill Elliott (Red Ryder), atuando em filmes e seriados, tinham, também, gibis com personagens vividos por eles, sendo que alguns, como Wayne, Ladd, Steele e Cameron apareciam com o seu próprio nome artístico. Esses gibis duraram um pouco mais atingindo a década de 1950. Nem todos eles, no entanto, eram editados no Brasil.

Os gibis de John Wayne ainda foram editados no Brasil por algum tempo.

                       John Wayne - Gibi Americano                         Abaixo, Rod Cameron
                    JOHN WAYNE - Adventure Comics - USA - nº 01 - anos 1950              
                                           Imagens gentilmente cedidas por Luis Peix - RJ                  
 

Conclusão:

## A década de 1940, conforme já registrado, foi um momento extremamente delicado para o mundo em função da guerra. Da mesma forma que ocorreu em relação a produtores e diretores de cinema, que foram convocados para a produção de filmes que pudessem divulgar e servirem de veículo para a chamada "propaganda de guerra" ou "esforço de guerra", editores, autores e desenhistas de quadrinhos também o foram. Apenas como exemplo, podemos citar alguns gibis editados nessa linha, vejam: 

                                  O Fantasma (publicado originalmente em 1942/43)
                                            Republicação da Ediouro - Pixel - 2014
                                              Acervo www.70-anos-de-gibis          
 
 
                                  Batman de                                             Capitão América - o representante máximo  
                                       1942                                                                   dos ideais americanos
                                          
         Capa gentilmente cedida por Luis Peix - RJ                          https://planetamongo.wordpress.com
 

Os anos de 1945 a 1949 acabaram por ter um significado especial para o mundo todo, ou seja, com o término da 2a. Guerra Mundial, um conflito que provocou profundas transformações em todos os segmentos, passou-se a valorizar muito mais cada detalhe, tudo adquiriu um novo significado, uma grande importância; era um tempo de reconstrução, de novas realizações, de incontáveis projetos e, principalmente, de muita esperança nos dias que viriam. 

## Assim, nos quadrinhos, tivemos a consolidação e a maciça divulgação de personagens e gibis - principalmente os originados nos USA - para todos os países. E com o Brasil não foi diferente. Iniciou-se um período (reconheça-se que, com algum atraso), como já foi dito acima, de grande divulgação e expansão das editoras, surgindo novos gibis a cada dia, com personagens os mais diversos. 

## Em 1949, com o término da década, os heróis estavam inquietos, uma nova etapa se iniciava. Capitão Marvel, Capitão América, Tarzan, O Fantasma, Sheena, Dick Tracy, Nick Holmes, Ferdinando, Spirit, Steve Canyon, Brick Bradford, Gene Autry, Rex Allen, Roy Rogers, Flecha Ligeira, Don Chicote, Buffalo Bill, Rocky Lane, Nevada (Red Ryder), Kit Carson, Durango Kid, Hopalong Cassidy, Zorro, Superman, Batman, além de outros, muitos outros, estavam a postos. Viveriam, certamente, grandes dias na década que se aproximava. 

Hoje, cada um de nós sabe que isto foi verdade.

Os anos 40 terminavam assim, como uma longa e tortuosa estrada, repleta de ameaças e perigos, mas que, todos esperavam, se dirigia para um novo mundo de esperanças e, principalmente, de liberdade.  

 
                                                 Uma "imagem" característica dos anos 40
                                   
                                                                                      www.pinterest.com
 

Dessa forma, chegamos aos últimos anos da década de 1940, início dos anos 50.

 
 
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- FIM DO MÓDULO -

- CONTINUA NO PRÓXIMO: Breve Histórico sobre GIBIS - Década de 1950.