Breve Histórico sobre GIBIS - (Brief History About COMIC BOOKS) 

- Primeiros Tempos até Década de 1930 - (Early Times Until the 1930's)

                                         Os alegres anos 30
                     
                                    www.wallpaperfromthe70s.com
 

Autor: Afonso - e-mail de contato: e70anosdegibis@yahoo.com

Os primeiros registros neste módulo ocorreram em 03/2014.

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Introdução:

## Continuo, aqui, as considerações que iniciei no módulo anterior, agora já abordando um contexto mais concreto, com vistas à editoração, mesmo que em pequena escala, das primeiras publicações que poderiam ser classificadas como sendo do gênero "histórias em quadrinhos".   

## Na verdade, sabemos que os gibis existem no Brasil desde o século XIX, mas eram, evidentemente, bastante rudimentares, com desenhos pouco elaborados e sem uma temática específica, editados em verdadeiros "panfletos", limitando-se, na maioria dos casos, a personagens não duradouros e que tinham muito mais uma finalidade crítica, ou seja, fazer rir dos costumes, dos políticos e das instituições, e muito menos o objetivo de proporcionar a leitura de uma historieta com início, meio e fim, detalhes só observados alguns anos depois, a partir do início do século XX

Publicações como "O Mosquito", "O Malho" e "O Tico-Tico", aparecem como as pioneiras, num período que se estende dos anos finais do Império aos primeiros anos da República. 

 

Abordagem:

 

É preciso registrar o pioneirismo de Angelo Agostini (1843 - 1910) responsável pelos jornais "O Diabo Coxo", este com a colaboração do poeta Luis Gama (1830 - 1882), e que durou apenas um ano - 1864/1865 e "O Cabrião", de igual breve existência - 1865/1866 (depredado), ambos de SP; posteriormente, já em 1876 lançou a "Revista Illustrada" onde publicava o personagem Zé Caiporapara muitos, a primeira incursão brasileira nos quadrinhos

Mas, especificamente sobre essas publicações, nessa época, é importante repetir que, muitas vezes provocavam reações violentas e represálias; uma delas já citei acima: a depredação de "O Cabrião". Tudo isso em vista do enfoque depreciativo das instituições e pessoas, em tiras publicadas em jornais e panfletos, a maioria delas de cunho político-humorístico. As leis ainda eram inadequadas e a liberdade de imprensa era somente um sonho.

Em 1902, depois de um período que passou na FrançaAgostini vai trabalhar com o jornalista e cartunista Crispim do Amaral (1858 - 1911) que cria o jornal/depois revista "O Malho", retomando seu personagem Zé Caipora. "O Malho" conta também com desenhos de J. Carlos (1884 - 1950).

Outro pioneiro foi Luis Bartolomeu de Souza e Silva, jornalista que, em outubro/1905, lançou a revista "O Tico-Tico" e que, um ano depois, nela lançava o que se considera o primeiro herói brasileiro dos quadrinhos: Juquinha (desenhado por J. Carlos), que tinha um companheiro negro chamado Gibi. Na revista "Tico-Tico", nesses primeiros anos, trabalha também Angelo Agostini, entre outros.

 

                                O primeiro dos artistas gráficos brasileiros,

                                         ainda nos tempos do Império:

                                 Angelo Agostini                                          E, abaixo, J. Carlos
 
                                            
                                                                    https://disqus.com
 
                       A 1a. edição de "O Tico-Tico"                             Gibi, de J. Carlos
                                                                                          (Personagem amigo de Juquinha)
                                      
                           hqmaniacs.uol.com.br                        blogdogutemberg.blogspot.com
 

Não podemos nos esquecer que a revista "O Tico-Tico" remonta a 1905, no entanto, foi apenas mais adiante, nos últimos anos da década de 1920 e na década de 1930 que, efetivamente, surgiram o que podemos chamar de "gibis". Havia um outro personagem-menino, chamado Chiquinho (copiado de um personagem norte-americano) que também era publicado no gibi "O Tico-Tico" e que aparecia com seu cão Jagunço. Mais tarde, já por volta de 1915, Luis Gomes Loureiro criou um amiguinho negro para ele, chamado Benjamin, e os dois viveram grandes aventuras, pelo menos nos 20/30 anos seguintes, quando foram desaparecendo.

Ainda na década de 1920, surgiu a "Revista Infantil" e, mais especificamente em 1929, "A Gazetinha" e "Mundo Infantil". O Diário Carioca inovou, editando um "caderno de quadrinhos", com quatro páginas, que chamou de "Suplemento de Domingo". 

## Nos USA, um nome que viria brilhar no universo das histórias em quadrinhos e da animação, comecava a se tornar conhecido: Walt Disney !!! Num sucessivo e vitorioso rol de lançamentos, deparamo-nos com nomes como Mickey, Minnie, Pato Donald, Pateta e outros, que passaram a se tornar conhecidos no mundo todo a partir dos últimos anos da década de 1920. 

Um fato histórico importante é que o personagem Mickey Mouse foi publicado pela primeira vez no Brasil, na revista "O Tico-Tico", em 1930

 
                                   Pato Donald                                       Pateta                                               Mickey
                      
                                                                             Imagens: www.google.com
 
 

## Na Europa, mais especificamente na Bélgica, país que se transformaria nas décadas seguintes em um grande produtor de quadrinhos, surge TINTIM em 1929 - um personagem criado por Herjé (Georges Prosper Remi - 1907 - 1983) - o que lhe confere o mérito de ter sido uma espécie de pioneiro. Mas sua publicação no Brasil somente ocorreu a partir dos anos 1950, até porque houve uma edição de Tintim na língua portuguesa, em Portugal, ainda na década de 1930 e que se tornou conhecida no Brasil.

## Na verdade, a indústria efetiva de quadrinhos, no Brasil, teve início em março/1934, com o "Suplemento Infantil" (depois Suplemento Juvenil), no Jornal A Nação, momento em que Adolfo Aizen (1907 - 1991) iniciou a publicação de alguns heróis americanos (Tarzan, Dick Tracy, Mandrake, Flash Gordon e O Príncipe Valente), embrião para a revista que lançaria em 1937: MIRIM. 

Há registros de que Aizen teria proposto uma parceria com Roberto Marinho para o lançamento de suas publicações, mas Marinho não aceitou.

## Conta a história que a palavra GIBI surgiu no Brasil em 1939, com o lançamento de uma revista com esse título, por Roberto Marinho (1904 - 2003), que montou a RGE - Rio Gráfica e Editora (uma empresa do futuro conglomerado "Organizações Globo"), que pretendia competir com a revista MIRIM lançada por Adolfo Aizen.

Aizen era um imigrante russo naturalizado brasileiro, e foi o fundador da Ebal - Editora Brasil América Ltda, que se tornou conhecidíssima de todos nós, fiéis leitores do que se passou a chamar "gibis". 

E Assis Chateaubriand (1892 - 1968), dos Diários Associados, outro dos grandes empresários da área de comunicações da época, extremamente influente, inclusive no campo político, atacava com seu "O GURY" (título depois alterado para O GURI), publicado no Diário da Noite.

 

                      Vejam que belas e históricas capas desses inesquecíveis gibis

 
 
- 1a., 2a, 4a. e 5a. capas - portaldogibinostalgia.blogspot.com
- 3a.capa: desmanipulador.blogspot.com
 

Adolfo Aizen, na sequência, lançaria o gibi O Lobinho, o qual, pelo que consta, foi uma espécie de auto-defesa, uma vez que Roberto Marinho havia lançado O Globo Juvenil Mensal, e Aizen, com uma visão muito clara do seu negócio, e preocupado que Marinho poderia fazer um outro lançamento possivelmente intitulado O Globinho, se antecipou lançando um gibi com um título bem parecido: O Lobinho. Este fez enorme sucesso e permaneceu até 1954, sendo hoje um dos mais valiosos gibis daquela época, cujos exemplares são disputados a peso de ouro pelos colecionadores. 

Em 1939, o poderoso "King Features Syndicate", por razões que se desconhece, mas que podemos considerar dentro do enfoque das "comumente nebulosas negociações de mercado", não renovou o contrato com Aizen, para publicação de seus heróis, assinando-o com Roberto Marinho, o que, efetivamente foi um duro golpe para Aizen

Um aspecto interessante desses eventos, e que considero importante levar a cada um dos caros internautas que passarem por aqui, é com relação ao ilibado caráter de Aizen. Na publicação de seu último gibi de Flash Gordon, em respeito aos leitores, fez constar no final que continuaria no gibi "O Juvenil Mensal" (de Marinho). 

Foi, efetivamente, uma ação que atesta os fortes princípios que norteavam sua vida profissional, ação esta impensável para os tempos ainda mais competitivos que se seguiram. Aizen foi, sem dúvida, um grande empresário e um grande homem.

 

          Abaixo, Adolfo Aizen                         Aqui, Roberto Marinho     e              Assis Chateaubriand

                

                www.onordeste.com                          www1.folha.uol.com.br                      brasil.elpais.com

## O final dos anos 30/início dos anos 40, foram tempos difíceis para o mundo todo, em função do conflito mundial que explodiu na época. Assim, não só os países diretamente envolvidos na guerra viram-se obrigados a concentrar recursos e esforços em assuntos e atividades inerentes ao conflito, como também outros países que não aderiram a um lado ou outro, mantendo-se neutros, sofreram restrições de investimentos e foram impactados pelas dificuldades de abastecimento, produção e distribuição de produtos. 

A editoração de quadrinhos é um exemplo típico da baixa produção nesse período, ainda mais se considerarmos o formidável "boom" dos anos 30, década que nos premiou com inúmeros personagens e gibis da maior qualidade. A retomada só ocorreria mais adiante, nos anos finais da década, prenúncio dos anos 50, após o término do conflito mundial em 1945.

## Particularmente sobre os quadrinhos, pode-se afirmar que sua qualidade, desde esses primeiros tempos, era indiscutível, havendo por parte dos desenhistas e seus editores, um esmerado cuidado com a nitidez do traço, a ponto de apresentarem, em alguns casos, um desenho quase fotográfico, com uma riqueza impressionante de detalhes.

 

                                                                 Belíssimos quadrinhos de
                                                          Flash Gordon - de Alex Raymond

 
            
                                                                            www.pinterest.com
                                                                           

É necessário considerar que estou me referindo a uma época em que os recursos de informática não existiam, e não havia qualquer condição de montagem de uma capa ou dos próprios quadrinhos, com a técnica e os recursos hoje existentes. O trabalho se aproximava muito mais de um trabalho artesanal. Não obstante, fazia-se verdadeiros milagres. 

Nesse contexto, Tex Avery desenvolve seu personagem Daffy Duck (Patolino, no Brasil) - lançado em 1937, mas há registros de que teria sido criado em 1933 -  e já se preparava para lançar Bugs Bunny - o nosso Pernalonga.Walter Lantz lança seu primeiro personagem de animação: Andy Panda, que obteve enorme sucesso, imediatamente ao seu lançamento, em 1939. Lantz também se preparava para lançar seu outro grande personagem: O Pica-Pau. Foi realmente um tempo de muita criatividade!

          
                Daffy Duck, o Patolino, de Tex Avery                            Andy Panda, de Waler Lantz                         
          
                                    www.google.com                                                   www.filmow.com
 

Considerações Adicionais:

## Paradoxalmente, considerando as dificuldades econômicas, observou-se no campo das artes nos USA, no decorrer dos anos 1930, um acentuado crescimento. Para termos uma ideia da verdadeira revolução cultural ocorrida nesse período nos USA, basta observarmos o que aconteceu, paralelamente à edição de quadrinhos, com a indústria cinematográfica nesses anos 30, que produziu importantes roteiros e filmes, até hoje considerados obras-primas, mais adiante abordadas. 

Assim, posso citar nomes de autores e desenhistas, e suas respectivas obras que, incrivelmente, surgiram nos anos 30 e que jamais serão esquecidos: 

- Harold Foster (O Príncipe Valente e Tarzan - neste, Foster contribuiu apenas com desenhos); Lee Falk e Ray Moore (O Fantasma); Al Capp (Ferdinando - Li'l Abner); Lee Falk e Phil Davis (Mandrake); Alex Raymond (Flash Gordon e Jim das Selvas); Tex Avery (Daffy Duck); Will Eisner (Sheena, Spirit); Milton Caniff (Terry, Steve Canyon); William Ritt e Clarence Gray (Brick Bradford); Chester Gould (Dick Tracy); Fred Harman (Red Ryder); Bill Finger e Bob Kane (Batman); Jerry Siegel e Joe Shuster (Superman); Walt Disney e Carl Barks (Mickey, Minnie, Donald, Pluto, Pateta, etc), Walter Lantz (Andy Panda). 

No âmbito do cinema, as seguintes obras se evidenciaram nos anos 30:

- Lanceiros da Índia, As Aventuras de Robin Hood, Cimarron, Beau Geste, Gunga-Din, Capitão Blood, Dodge City, No Tempo das Diligências, Aliança de Aço, Ao Rufar dos Tambores, E o Vento Levou, além dos primeiros filmes de Tarzan - com Johnny Weissmuller, entre muitos outros. 

 

                                   Magnífico quadrinho de Hal Foster para O Príncipe Valente

                  
                                                                                                         https://en.wikipedia.org
                                                  

Abaixo, um resumo sobre personagens - com suas respectivas idades em 2019 -  surgidos à época (até final dos anos 30):

 
122 anos (1897) - Sobrinhos do Capitão
113 anos (1906) - Juquinha
107 anos (1912) - Tarzan
  97 anos (1922) - Rin Tin Tin (o personagem, não o cão original)
  94 anos (1925) - Charlie Chan
  91 anos (1928) - Mickey Mouse, Minnie
  90 anos (1929) - TinTim, Popeye
  89 anos (1930) - Pepé Le Pew
  88 anos (1931) - Dick Tracy, Azeitona, Reco-Reco, Bolão
  87 anos (1932) - Pateta, Henry (Pinduca)
  86 anos (1933) - The Lone Ranger (Zorro), Brick Bradford
  85 anos (1934) - Flash Gordon, Jim das Selvas, Red Ryder & Little Beaver (Castorzinho), Pato Donald, Mandrake, Terry (and the pirates)
  84 anos (1935) - Luluzinha, Bolinha, Rei da Polícia Montada
  83 anos (1936) - O Fantasma
  82 anos (1937) - Sheena, (Little) Hawita, O Príncipe Valente, Patolino (Daffy Duck)
  81 anos (1938) - Lassie, Superman
  80 anos (1939) - Gasparzinho, Capitão Marvel, Batman, Andy Panda
 

Conclusão:

## Na década de 1930, o Brasil, praticamente preparou o terreno para atuação na indústria dos quadrinhos, nos anos que se seguiriam, com os três grandes nomes das comunicações e da editoração - Marinho, Aizen e Chateaubriand - competindo, criando e investindo. 

## Os USA experimentaram, sem dúvida, o momento mais importante da história dos quadrinhos, que redundou na chamada "era de ouro dos quadrinhos", com o surgimento de inúmeros roteiristas e desenhistas, e com personagens que se tornaram verdadeiros ícones, contudo, a repercussão desse "boom" de criatividade, no Brasil, só aconteceria realmente, na década seguinte, nos anos 40 (e na sua segunda metade), possivelmente pelos efeitos da 2a. Guerra Mundial.

Talvez, à época - anos 30 - não se tenha percebido claramente o forte impacto desse contexto e desses personagens, pois o mundo enfrentava um período extremamente difícil: os anos que antecederam a Segunda Guerra (não se podendo esquecer que os USA vinham da Grande Depressão iniciada em 1929).

Realmente, e quase um paradoxo, os anos 1930 nos USA são considerados um período muito especial, dificílimo de ser igualado, em termos de criatividade, não só na área dos quadrinhos, mas também na indústria do cinema, na literatura e artes em geral. Esse período se caracterizou por um detalhe muito significativo: a plena dedicação de autores, atores, diretores, desenhistas, ilustradores, etc, que ousaram colocar seus trabalhos nos almejados níveis da perfeição (*) !!!

(*) faço aqui uma conjectura, mas calcada em profunda observação do período considerado, a respeito desse incrível "boom". Acredito que os difíceis anos iniciais da década, caracterizados pela "Grande Depressão" tenham causado um efeito surpreendente e revelador da capacidade do ser humano: diante do desemprego, da falta de dinheiro, da fome e dificuldades de toda ordem, cada um passou a dar o máximo de si, buscando - pelo esforço e pela criatividade - não só preservar, mas, principalmente, expandir a atividade que tinha. 

Foi, sem dúvida, um dos mais significativos exemplos da formidável reação do ser humano à adversidade !!!

Uma década vitoriosa para as artes! 

 

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- FIM DO MÓDULO  

- CONTINUA NO PRÓXIMO: Breve Histórico sobre GIBIS - Década de 1940 

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