Breve Histórico sobre GIBIS - (Brief History About COMIC BOOKS)

- Década de 1970 (1970's)

                                                           Ponte Rio / Niterói
                           
                                                             www.google.com
 
 

Autor: Afonso - e-mail de contato: e70anosdegibis@yahoo.com

Os primeiros registros neste módulo ocorreram em 03/2014.

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Introdução:

 

## O homem havia chegado à Lua em 1969. A visão do universo agora era outra, já havia um sentimento de que "coisas tidas como impossíveis" tornavam-se "possíveis".

## O Brasil entrou na década de 1970, politicamente, sob governo militar, fruto do movimento ocorrido em março de 1964. Foi um período de grandes transformações, experimentando a economia brasileira um elevado crescimento, apesar - paradoxalmente - dos elevados índices de inflação verificados, o que de certa forma  dificultava a atividade empresarial, no entanto, havia um crescimento do consumo, alavancado pelas oportunidades de emprego.  

As editoras enfrentavam custos elevados, tanto de matéria prima quanto de operacionalização, com reflexos diretos no preço das publicações, corrigidos praticamente todos os meses. 

 

Abordagem:

 

## Havia um forte espírito de "profissionalização" nas empresas de todos os segmentos, já no final dos anos 60, início da década de 1970. Foi a época áurea da "Administração por Objetivos", que acabou por trazer efetivos resultados para as empresas. O empirismo e a improvisação definitivamente haviam sido abandonados. Buscava-se desenvolver produtos aderentes ao mercado e o "controle de custos" adquiriu uma enorme importância nas organizações. Bem ou mal, falava-se muito em "planejamento", e o próprio governo brasileiro implementou o que chamava de PND (Plano Nacional de Desenvolvimento), com reflexos bastante positivos no crescimento do país.

O governo brasileiro, dentro desse espírito, criava programas, fundos e projetos que viriam suportar essa ideia de atualização, de crescimento. O BNDE, com seus programas voltados para o atendimento de financiamentos a pessoas físicas e jurídicas, quer seja para construção e reforma de unidades habitacionais, quer seja para modernização de maquinário e equipamentos das empresas, é um exemplo típico desse espírito alavancador. No setor gráfico e editorial os resultados surgiram rapidamente.

## Assim, no âmbito dos quadrinhos, e dentro dessas novas oportunidades / possibilidades, foram surgindo publicações mais sofisticadas, com exemplares encadernados com especial esmero, como é, por exemplo, o caso do gibi "TEX" - cujas primeiras edições, bastante rudimentares, remontam à década de 1950 - mas que só alcançou sucesso, efetivamente, a partir dos anos 70/80

Este herói - TEX - vale registrar, tem uma característica peculiar: ambientado no Velho Oeste americano, foi criado na Itália por Giovanni Luigi Bonelli, com desenhos de Aurelio Galleppini, e teve - ao longo do tempo - uma série de publicações distintas, com vários desenhistas e em formatos diferentes, não tendo sido, curiosamente, publicado nos USA

TEX tem uma vida longa e resiste bravamente aos impiedosos ataques dos super-heróis Marvel e DC Comics. Continua fazendo sucesso, havendo admiradores seus em inúmeros países. Novas edições continuam sendo lançadas e com elevado grau de aceitação do público leitor. Os leitores de TEX - e eu estou entre eles - muito provavelmente são os mais fiéis que se conhece !!!

 
         O grande herói TEX aqui em desenho de                       TEX a cores nº 1 - Ed. Globo
                                 Joe Kubert
                                  
                                   
                            Ambos os gibis são do meu acervo: https://70-anos-de-gibis
 

## Surgiram nessa fase, quadrinistas e cartunistas brasileiros de grande valor, extremamente criativos, mas dentro de uma concepção moderna, arrojada, muitos deles fazendo crítica ao governo militar, entre os quais podemos citar: Henfil (personagens ao longo do tempo: Fradim, Graúna, Bode Orelana, Caboco Mamadô, etc), Ziraldo (personagens: Turma do Pererê, Menino Maluquinho, Supermãe, etc), além de Jaguar Millor Fernandes, que já atuavam no mercado há algum tempo, todos eles publicando seus trabalhos em tiras de jornais e utilizando o irreverente jornal "Pasquim" como veículo. Tanto o jornal quanto cada um deles tiveram grande aceitação do público e um sucesso sem precedentes. 

 
                   Ziraldo e a Turma do Pererê                                             O Pasquim
                                                                                 
                                            
  Gibi de meu acervo: https://70-anos-de-gibis                             https://pt.quizur.com
 

Mais tarde, inclusive adentrando pela década de 1980, esse time foi reforçado por Angeli, Laerte, Glauco e Adão Iturrusgarai (personagens: Los Tres Amigos, Wood & Stock, Rê Bordosa, Piratas do Tietê, Geraldão, Aline, Rocky & Hudson, etc), cujos personagens, de grande identificação com o público, estão todos eles, hoje, definitivamente integrados à cultura brasileira. 

## Nesse período surge na França, a publicação de um dos maiores personagens já surgidos nos quadrinhos - Corto Maltese - de autoria de Hugo Pratt, que o vinha desenhando e elaborando desde 1967. Corto Maltese é um astuto marinheiro que vive emocionantes aventuras pelo mundo, à moda de TinTim (envolvendo-se nas mais intrigantes situações), mas sempre com sua visão muito particular da vida e das pessoas. No Brasil, fez grande sucesso na década de 80.

Para se ter uma idéia do que pensa Corto Maltese, reproduzo a seguir, o balão de um dos quadrinhos - página 57 da edição da Pixel Media, "Sob o Signo de Capricórnio": 

- "Trouxe você comigo porque é simpático ... mas se pretende me censurar, deve mudar de endereço ... Veja bem, Steiner, não sou sério o bastante para dar conselhos, mas sou sério demais para ouvir palpites, portanto, não seja infantil e me deixe viver a meu modo." Desnecessário dizer mais. 

E, de altíssima qualidade gráfica, na mesma linha de Corto Maltese, são também os chamados "álbuns" (mais distantes do quadrinho-padrão, isto é, do gibi convencional), com os personagens Asterix, dos franceses Goscinny e Uderzo, e Lucky Luke do belga Morris, com texto de Goscinny, singulares representantes, entre outros, dessa "modernidade" dos quadrinhos. 

Asterix vinha do final da década de 1950, início dos anos 60, e Lucky Luke do final dos anos 40, épocas em que foram publicados na Europa, vindo, ambos os gibis, a fazer sucesso e ser publicados no Brasil muitos anos depois.

                                                                         
                           Asterix                                                                O formidável Lucky Luke
   
            https://pt.wikipedia.org                                                            www.pinterest.com
 

Tais publicações - Corto Maltese, Asterix e Lucky Luke - já não possuem as características ingênuas e simples, peculiares do quadrinho tradicional. Corto Maltese, no traço de Hugo Pratt, valoriza sobremaneira o desenho em preto-e-branco. 

No caso de Asterix e Lucky Luke, temos desenhos ricamente coloridos, de altíssimo nível de criação e elaboração, cujas histórias baseiam-se em fatos históricos (o primeiro sobre o Império Romano e a dominação da Gália; o segundo sobre o Velho Oeste americano) e que traduzem, de forma cômica e extremamente competente, situações e acontecimentos conhecidos.

 
                                  Corto Maltese - Gibi                                                Asterix - Gibi

                CORTO MALTESE - Pixel Media - Sempre um Pouco mais Distante - s/nº - Maio 2006    

                                  Ambos os gibis são do meu acervo: https://70-anos-de-gibis
 

São edições cercadas de cuidados especiais e que tiveram enorme penetração em todo o mundo. Corto Maltese transformou-se em referência de quadrinhos e personagem amado em todas as partes, e Asterix e Lucky Luke trilharam caminhos idênticos e geraram filmes (inclusive animações) de grande sucesso, tanto junto às crianças e jovens, quanto ao público adulto. 

## Começam a aparecer no Brasil, não no mercado convencional, mas em anúncios em revistas especializadas, exemplares de publicações portuguesas, entre elas: Mundo de Aventuras, O Mosquito e O Cavaleiro Andante, contendo primorosos quadrinhos europeus, na sua maioria oriundos dos geniais criadores franco-belgas (vide neste site, outros detalhes no módulo Curiosidades sobre Gibis - item 33, 34 e 47).

## E, na Espanha, a exemplo do que ocorreu na Bélgica, na França e na Itália, surge um quadrinista singular: Antonio Hernandez Palacios. Demonstrando, mais uma vez, a grande simpatia nutrida pelos europeus em relação ao Velho Oeste americano, Palacios cria - entre outros - o personagem Manos Kelly, um grande herói do faroeste, com traços vigorosos e mostrando (quase fotografando) uma paisagem deslumbrante, riquíssima em detalhes. Importante citar, também, o personagem MacCoy, outro herói do Velho Oeste, desta vez em parceria com o escritor francês Jean-Pierre Gourmelen, em uma notável série de gibis (na verdade, eram álbuns coloridos com capas cartonadas e encadernação com lombada quadrada).

 
Abaixo, uma bela página de Palacios - Manos Kelly                       Abaixo, McCoy, de Palacios
        
Pg de gibi do meu acervo: https://70-anos-de-gibis                                        www.pinterest.com      
 

## Em 1974, também nascido na Itália, como Tex, surge Ken Parker, um novo e vigoroso herói do Velho Oeste americano, criado por Berardi & Milazzo. Parker teve como molde, o denso e intrigante personagem Jeremiah Johnson, vivido por Robert Redford no excelente western de 1972, "Jeremiah Johnson", no Brasil chamado "Mais Forte que a Vingança", dirigido por Sidney Pollack. Num primeiro momento, Ken Parker foi publicado no Brasil pela Editora Vecchi e depois pela Mythos Editora. Transformou-se em um dos grandes heróis do faroeste, cujo gibi, gradativamente, passou a ser muito procurado pelos leitores. 

 
               Ken Parker - de Berardi & Milazzo                        E Jeremiah Johnson - Robert Redford
 
                           
 
                                     www.postcardcult.com
 

Surge, então, o que se transformaria num dos maiores nomes dos quadrinhos de todos os tempos: X-Men, em especial o herói Wolverine (este, para mim e meus sobrinhos Valéria e Rafael, um de nossos heróis preferidos).

 
                                          Wolverine                                                                  Pelezinho
                                                
                                    www.buzzfeed.com                                                   www.google.com
          

## E Maurício de Sousa lança pela Editora Abril,  Pelezinho, personagem mirim inspirado no craque de futebol Pelé, aproveitando a simpatia do brasileiro pelo futebol, ou seja, um personagem simpático, com tudo para dar certo. 

## Na Itália, Sérgio Bonelli que herdou a persistência do pai, lança em 1975, pela Bonelli Editora, o herói Mister No, com um bom resultado. Um personagem carismático e que se mantém no mercado até os dias atuais.

 
                                                            Mister No - Bonelli
                                                
                                                        https://tr.wikipedia.org     
                        

## Não podemos ignorar a influência também exercida pela TV na editoração de quadrinhos, a partir de 1970, com o advento da TV a cores no Brasil. Inconscientemente, o leitor passou a exigir histórias coloridas, por força dos desenhos animados coloridos que passou a ver na TV, não mais se satisfazendo, a grande maioria - notadamente os mais jovens - com os quadrinhos em preto e branco.                  

Dessa forma, já não se aceitava mais, entre os jovens consumidores de gibis, o desenho em preto e branco, tão admirado anteriormente. Para os mais velhos, no entanto, assim como veio a acontecer no mercado fotográfico ainda na década de 1960, o uso da cor causou, inicialmente, forte impacto e uma certa rejeição ao quadrinho colorido. Para esse tipo de leitor, no qual me incluo, nada mais significativo que um desenho em preto e branco, bem elaborado. Mas, com o tempo, e não poderia ser diferente, o quadrinho colorido se impôs, mesmo porque "novos leitores" são sempre "jovens leitores". 

Abaixo, um resumo de personagens - com suas respectivas idades - surgidos na década de 1970:

 
  49 anos (1970) - Manos Kelly
  48 anos (1971) - Fradim, Graúna, Bode Orelana
  45 anos (1974) - Ken Parker, Mac Coy, Wolverine 
  44 anos (1975) - Mister No                                                         
  42 anos (1977) - Pelezinho

 

Conclusão:

## Os anos 70 representaram no Brasil, uma espécie de ponte entre os tradicionais quadrinhos preto-e-branco das décadas anteriores e os quadrinhos a cores que aos poucos foram sendo introduzidos no mercado, notadamente aqueles oriundos da Europa, em especial os quadrinhos franco-belgas e aqueles, independentemente da origem, mas produzidos em Portugal.

Foi um período de relativa dificuldade no Brasil e, paradoxalmente, como já foi dito, de crescimento, com as empresas preocupadas com produtividade e custos, como forma de enfrentamento às dificuldades econômicas da época, mas um período marcado por grandes realizações em todos os segmentos, graças a um modelo de planejamento governamental que se mostrou factível, calcado no que se denominou PND - Plano Nacional de Desenvolvimento, uma das "marcas registradas" do governo militar.  

Não sabíamos, ainda, mas estávamos entrando em um período - a década de 1980 - no Brasil, que mais tarde seria conhecido como a "Década Perdida", em que muito se trabalhou e pouco resultado se teve, infelizmente. Mas isto veremos mais tarde.

Os anos 80 estavam chegando ...

 
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- FIM DO MÓDULO

- Continua no Módulo BREVE HISTÓRICO SOBRE GIBIS - Década de 1980 e posteriores

 
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